Orgulho transgênico
30 abr 2010
Para criar uma soja modificada, a Embrapa se uniu à alemã Basf. Os prós e os contras desse avanço
FONTE: Thiago Cid
Revista Época
O Brasil entrou para o seleto grupo dos países capazes de aplicar engenharia genética à agricultura em larga escala. A novidade veio na forma de uma semente de soja transgênica, que recebeu um gene de outra planta, da família da mostarda, para se tornar resistente a um herbicida. Ela deverá estar à disposição dos agricultores para ser plantada em 2011. Embora conquistas científicas, tecnológicas e comerciais sejam sempre motivo de celebração, a sementinha tem potencial para fazer brotar algumas polêmicas. Não só é um transgênico (tecnologia criticada há anos por uma campanha um tanto obscurantista), como também nasceu de uma parceria entre a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a indústria química alemã Basf.
A parceria teve benefícios e custos. Foi necessária porque a empresa alemã detém a patente do gene resistente ao herbicida. No processo, a Embrapa passou a realizar com mais segurança e controle o trabalho de modificação genética. “Foram três anos de laboratório só para inserir o gene”, afirma o pesquisador Elíbio Rech, um dos responsáveis pela nova semente. A empreitada capacitou cientistas brasileiros em nove centros de pesquisa. A estatal aplicará esse conhecimento em seus próximos transgênicos: uma semente de feijão mais resistente a pragas e outra de soja mais resistente à seca.
Com a nova semente, os agricultores podem aplicar herbicidas contra ervas daninhas sem correr o risco de matar a soja. Sem precisar disputar os nutrientes da terra, a soja cresce melhor. Mas aí surge um convite à polêmica: a nova semente só resiste ao herbicida da Basf. A concorrente que já está no mercado só resiste ao herbicida da americana Monsanto. O agricultor não pode optar pela semente de uma empresa e o herbicida de outra. Essa liberdade seria desejável, mas não se encaixa no atual formato do mercado. A Embrapa aceitou essa regra do jogo. “A liberdade seria tecnicamente possível, mas, por questões de mercado, não vai acontecer”, afirma o presidente da Embrapa, Pedro Arraes. “As empresas não vão liberar as patentes de suas pesquisas.”
Para participar desse jogo, a estatal brasileira teve de eleger uma parceira privada e se comprometer com um produto. “A Basf trabalhou conosco porque decidiu desenvolver sua espécie aqui no Brasil, enquanto a Monsanto fez a dela nos Estados Unidos”, diz Rech, da Embrapa. O cientista lembra, porém, que a estatal brasileira oferece apoio técnico para agricultores que usem qualquer tecnologia.
A semente germano-brasileira, batizada de Cultivance, custou US$ 20 milhões. Vai brigar por uma boa fatia de mercado, já que 60% das sementes de soja plantadas no Brasil são transgênicas. “A semente é uma promessa, mas é preciso esperar que o mercado comprove isso colhendo boas safras”, afirma Rafael Ribeiro, da consultoria agrícola Scot.
