Engenharia tem quase cem tipos diferentes de cursos

12 mai 2009
FONTE: Folha de S.Paulo

A área de engenharia, que está entre as carreiras mais cobiçadas das universidades, é composta por um leque de 93 especialidades que vão da pesca até a engenharia aeronáutica, segundo o Confea (Conselho Federal de Engenharia).

Apesar de serem tão diferentes entre si, todas têm uma característica em comum, afirmam diretores de curso: formam profissionais treinados para planejar e resolver problemas usando matemática e física –o que, na linguagem da área, é chamado de “modelar”.

“Para projetar um prédio, um engenheiro civil cria modelos matemáticos. Um princípio parecido é usado pelo engenheiro agrônomo para planejar áreas de irrigação, e assim por diante”, afirma Jorge Stolfi, professor de engenharia de computação da Unicamp.

Na opinião do presidente do Instituto de Engenharia, Edemar de Souza Amorim, uma formação ampla, com conhecimentos inclusive em línguas, é mais importante do que ter conhecimentos específicos. “Sem conhecimento sólido, o profissional não avança na carreira.”

Outros especialistas concordam. “A engenharia exige comunicação e trabalho em equipe. Ser apenas um “fera” em matemática é ruim”, diz o vice-diretor da Escola Politécnica da USP, José Roberto Cardoso.

Os candidatos a uma vaga em engenharia podem se preparar: os cursos em geral são integrais e com carga horária exigente.

“Já é impossível ensinar tudo o que o engenheiro precisa em cinco anos, período de duração dos cursos. Uma faculdade que ministre menos [tempo] do que isso não é boa”, ressalta Ivan Falleiros, diretor da Poli-USP.

Para conferir se uma escola de engenharia tem qualidade, Falleiros sugere aos estudantes que procurem tanto conhecer as condições dos laboratórios quanto os locais onde estão trabalhando os recém-formados.

Pedro Myaki, 25, aluno do sexto ano de engenharia naval na Poli-USP, orgulha-se de seu curso. “Aqui tem ótimos professores e bons laboratórios”, diz ele, que já trabalhou com dimensionamento de barcos e plataformas petrolíferas. “Tenho amigos que a toda hora estão indo trabalhar fora. Há grande demanda por profissionais.”

Na Unicamp, um dos cursos de maior destaque é o de engenharia de computação. Os alunos têm aulas de desenvolvimento de software, produção gráfica, uso de inteligência artificial e outras disciplinas.

“O nosso diferencial é a qualidade do corpo docente e dos alunos. É um time de primeira, que poderia criar algo tão bom quanto o Google”, diz Stolfi.
Por ser a mais tradicional escola de engenharia do país, a Poli-USP atrai muitos alunos de fora do Estado de São Paulo.

Um exemplo é Fabrizia Melo, 18, do segundo ano de engenharia de produção, que veio de Teresina (PI). “Várias portas se abriram para mim depois daqui”.

País tem falta de formados e mercado em expansão

Existe uma grande procura por profissionais formados em todas as carreiras de engenharia, afirma José Tadeu da Silva, presidente do Crea-SP (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura Agronomia de São Paulo). Ele afirma que a crise econômica ainda não chegou “com força” à profissão. “Há muitos investimentos que continuam sendo realizados, tanto pelo setor público quanto por empresas, mas falta gente graduada”.

O Brasil forma, por ano, cerca de 25 mil engenheiros - um terço do número da Coréia do Sul, que gradua anualmente em torno de 80 mil profissionais.

Como faltam engenheiros, sobram postos de trabalho para gente qualificada, inclusive no exterior. Foi o que deu um impulso na carreira de Rafael Watai, 23, aluno do quarto ano de engenharia naval na Poli-USP.

No ano passado, ele estagiou em uma empresa na Holanda por sete meses. “Fiquei em Roterdã, trabalhando em um projeto de estabilização para plataformas de petróleo em sistemas marítimos”.

Dúvida

Por pouco Rafael não optou por outra área. “Passei três anos do curso acreditando que queria elétrica e só fui descobrir naval no ano passado”.

Essa é uma situação comum, afirma Denis Coury, chefe do departamento de engenharia elétrica da USP de São Carlos.

“Os alunos chegam muito novos à faculdade e trocam de área com frequência ou não sabem o que querem. Muitos desistem do curso ou vão trabalhar com outra coisa”.

Paula Ruocco, 22, que estuda na Poli-USP, passou por isso. “Não sabia que engenharia eu queria. Ao longo do tempo optei por civil, de que gosto bastante. Mas vejo gente desistir a toda hora”, diz ela, que está cursando o quarto ano.

Boa parte dos recém-formados ou estudantes de engenharia já trabalhou em banco, gerência de empresa ou no mercado financeiro, diz o coordenador de engenharia civil da Unesp de Bauru, Carlos Eduardo Javaroni. “O salário chega a R$ 8.000, é atraente”, diz ele.

Coury concorda. “Isso acontece mesmo, é inevitável. Quem faz engenharia costuma ser bom com números e planejamento, e os bancos valorizam. Mas dá para trabalhar como engenheiro e ganhar bem”.

O campus da USP em São Carlos, onde Coury leciona, é conhecido pelos cursos diferenciados que oferece, como engenharia aeronáutica e mecatrônica. Como as outras universidades públicas, a USP reúne grande número de cursos, mas tem perfil mais forte em alguns.

Outra dificuldade para as empresas é encontrar alunos com especialização em engenharia, afirmam especialistas. Segundo a Federação Nacional dos Engenheiros, dos 10 mil doutores formados todo ano, só 13% são desta área. No mestrado, os engenheiros são 11,6% de um total de 30 mil alunos.