Construção civil em alta deixa PB sem tijolo e cimento no comércio
19 jul 2010FONTE: Jornal da Paraíba
Ritmo acelerado causa falta de material
A indústria que envolve nacionalmente dez milhões de empregos, acaba de colocar cinco mil novos imóveis em oferta e estima uma movimentação anual superior a R$ 1,1 bilhão apenas em João Pessoa. Potência sustentada por um equilibrado tripé econômico - estabilização da inflação, abertura do crédito bancário e melhor renda dos trabalhadores -, a construção civil vem se tornando o alicerce sobre o qual se ergue novo cenário em todo o Estado, que vem verticalizando a vida de quem sonhava com uma oportunidade de emprego ou com a casa própria. Como um teto para chamar de seu deixou de ser realidade dos ricos, falta cimento, telhas e tijolos no comércio para concretizar tantos sonhos.
Comerciante há vinte anos, Maria da Paz Araújo poucas vezes conviveu com o problema de falta de material de construção no mercado. “Com esse boom no setor, as pessoas estão construindo cada vez mais, e muitas costumam comprar diretamente nas fábricas. Assim, os fabricantes estavam vendendo para o consumidor e deixando de abastecer o comércio, o que é proibido por lei”, revela a proprietária do Depósito Shalon. “A solução que encontramos foi mandar buscar na fábrica, já que as vendas cresceram em média 30%, principalmente de tijolo e cimento. São mais de dois mil sacos por mês”.
O presidente da Federação do Comércio de Bens, Indústrias, Serviços e Turismo do Estado da Paraíba (Fecomércio-PB) Marconi Medeiros afirma que as lojas de materias de construção demonstram um crescimento de cerca de 9% em relação ao primeiro semestre de 2009. “Esses números correspondem principalmente ao estímulo do Governo Federal, através de programas como ‘Minha Casa, Minha Vida’, além o crescimento da renda da sociedade paraibana, que vem aumentando sensivelmente”, avalia.
Programas públicos de incentivo a moradia impulsionam esse avanço, mas não são os únicos responsáveis pela expansão, segundo o presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil (Sinduscon-JP), Irenaldo Quintans. “Os programas são um dos fatores, mas o mercado se aqueceu como um todo, pois com a atual estabilidade os trabalhadores têm mais condições de programar suas prestações e assumir os financiamentos relacionados à habitação”, revela Quintans.
Depois de um longo período de resistência ao crédito para moradia, a retomada da oferta de financiamento bancário mostrou-se fundamental nesse processo. O engenheiro explica que hoje todos os bancos que operam em território nacional, independentes de serem oficiais ou privados, estão com créditos imobiliários à disposição dos clientes das mais diversas camadas sociais, emprestando dinheiro tanto para as construtoras quanto para o consumidor final.”Foram quase vinte anos de financiamentos apenas esporádicos, época em que o mercado quase não operou com bancos, pois estes temiam uma volta da inflação”, recorda Irenaldo Quintans. “Mas desde 2003 para cá o crédito imobiliário nacional passou de 0,5% a 5% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional, crescimento sobretudo motivado pela aprovação da lei n° 10.931, que trouxe uma série de novidades imobiliárias, no que diz respeito à responsabilidade dos bancos de movimentarem no mercado os papéis imobiliários”.
Para não correr o risco de perder uma fatia desse bolo, construtores, fornecedores e comerciantes já estão reforçando seus estoques.A falta de material foi resultado de um desequilíbrio entre a grande procura e a capacidade da indústria de fornecer material, mas ambas já estão se ajustando”, adianta Irenaldo Quintans. “O processo leva algum tempo”, pondera.
Em CG, comércio também registra carência
Em Campina Grande, os itens de primeira necessidade da construção civil, como cimento, tijolo e telha, também estão registrando grande procura e isso, em alguns casos, tem ocasionado a falta dos produtos nos estabelecimentos.
Joel Cosmo Brito é dono de uma distribuidora de cimento e, segundo suas projeções, o crescimento nas vendas estão variando entre 12% e 15% com relação ao ano passado.
Devido à grande procura, ele disse que, em termos gerais, não chega a ficar com o estoque comprometido, mas dependendo da marca, o cliente muitas vezes tem que esperar alguns dias para receber o produto. A maior parte do cimento comercializado por ele é produzido na Paraíba. Chagas Leandro é gerente de uma loja de material de construção e disse que no caso do cimento, acaba tendo que receber o pedido por partes.. “As vezes a gente solicita 100 sacos, mas eles só têm capacidade de nos enviar 20, por exemplo, para poder atender a todos”, conta. O gerente também afirma que além de cimento, há uma falta de materiais como massame, brasilite, telhas e tijolos. De todos, ele disse que a telha, sobretudo as usadas em telhados com formato de castelo, é o item de construção que mais tem faltado. “As pessoas precisam encomendar com até um mês de antecedência”, comenta. Para ele, os produtores de materiais de construção não estavam preparados para atender a esse crescimento.
Programa habitacional aumenta demanda
‘Como exemplo daquele velho ditado que diz que “quem casa, quer casa”, moradia sempre foi um problema para a pedagoga Maria do Carmo Lucena, de 31 anos, e para o auxiliar administrativo Marcus Vinícius Rodrigues, de 29 anos. Os recém-casados namoraram durante dez anos, contando com o período de seis anos de noivado, época em que o matrimônio foi adiado inúmeras vezes pela falta de um lar doce lar. Impasse resolvido graças ao programa “Minha Casa, Minha Vida”, do Governo Federal. O programa habitacional também é responsável pelo boom na construção civil.
“Nós já tínhamos resolvido casar e morar de aluguel, até que uma corretora amiga nos encorajou a participar do programa assistencial e com pouco mais de um mês resolvemos tudo, da escolha do apartamento à liberação da papelada”, declarou Maria do Carmo, que recebeu R$ 11 mil em incentivo público para a compra do imóvel. “O apartamento custou R$ 80 mil, mas com o abatimento do Governo só precisei financiar R$ 69 mil pela Caixa. A parcela ficou em R$ 499, menos do que pagaria em um aluguel”.
O casal faz parte de uma grande massa composta por pessoas de baixa e média renda que passaram a ter acesso ao sonho da casa própria através do ‘Minha Casa, Minha Vida’. Lançado em 2009 em todo o país, o programa federal que funciona em contrapartida com os estados e municípios atende a famílias que recebam de zero até dez salários mínimos, com incentivos de no máximo R$ 17 mil para a compra do imóvel, dependendo da renda mensal. Atrativos que acumulam um banco de dados com mais de 130 mil inscritos apenas através do Governo do Estado da Paraíba, sem contar com os compradores que procuram diretamente a Caixa Econômica Federal.Segundo a assistente social da Companhia Estadual de Habitação Popular da Paraíba (Cehap), Adriana Casimiro Batista, as inscrições presenciais e pela internet estão suspensas desde o dia 3 de julho, mas devem ser reabertas após o período eleitoral. Ela explica que o programa foi criado justamente para atender a esse público, com 7.707 unidades a serem construídas somente a partir da gestão estadual em parceria com o Governo Federal.
“Cinco municípios serão contemplados em todo o Estado, João Pessoa, com 1.952 unidades, Santa Rita com 1.024, Bayeux com 2.275, Campina Grande com 1.956 e Mamanguape com 500 casas. A maioria das licitações já foi finalizada e as obras devem começar dentro dos próximos meses”, revela a assistente social. “Uma das contrapartidas do Estado é oferecer equipamentos comunitários nessas regiões, como escolas, postos de saúde e policiamento para as novas unidades habitacionais”. Os interessados em participar do programa através das casas e condomínios construídos pelo Governo do Estado podem se inscrever pessoalmente na sede Companhia Estadual de Habitação Popular da Paraíba (Cehap), em Mangabeira, ou pela internet (www.cehap.pb.gov.br).
A Prefeitura Municipal de João Pessoa (PMJP) informa que foi a primeira em todo o Estado a assinar o contrato para a construção do projeto destinado especialmente para famílias de 0 a 3 salários mínimos. Para a secretária municipal de Habitação Social, Emília Correia Lima, o programa ‘Minha Casa, Minha Vida’ acelerou o processo de construção de mais de 2 mil unidades - entre os conjuntos Anayde Beiriz, Colinas do Sul e outras parcerias com a iniciativa privada. “O novo programa conseguiu agilizar os entraves burocráticos e a questão das parcerias”, afirma Emília Correia.
Construtoras: de olho no segmento popular
De olho no público que hoje tem a chance de conquistar a casa própria, muitas construtoras chegam a mudar seu nicho de mercado. Com imóveis entre R$ 40 mil e R$ 1,5 milhão à disposição, existe cliente para todos os tipos, mas a grande procura passou a ser por imóveis simples, em bairros menos cotados até poucos anos atrás.
“A preponderância dos imóveis mais sofisticados continua sendo na Orla Marítima, mas bairros como Miramar, Jardim Luna, Bancários e Valentina vem surgindo como importantes nesse cenário”, analisa o o presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil de João Pessoa (Sinduscon-JP), Irenaldo Quintans.”O Altiplano, onde antigamente era proibido construir, foi liberado e vem crescendo bastante, alavancando as construções também nas suas proximidades”.
Essa mudança no mercado imobiliário é relacionada também à questão da renda do paraibano, na opinião do presidente da Federação do Comércio de Bens, Indústrias, Serviços e Turismo do Estado da Paraíba (Fecomércio-PB) Marconi Medeiros. “A diferença dos anos anteriores é grande, sobretudo no que corresponde à renda do paraibano que ganha acima do salário mínimo e que está adquirindo muitos imóveis residenciais. Estamos com um crescimento forte na construção de casas e edfícios para o pessoal de renda mais baixa”.
“Passamos muito tempo sem fornecer casas para as camadas D e E. Até pouco tempo, só comprava imóvel quem tinha condições de acumular a prestação do financiamento com o valor do aluguel, porque era sistema de auto-financiamento, não havia banco no processo. Era preciso dar entrada, ficar pagando e esperando a entrega”, lembra Irenaldo Quintans.
Graças à movimentação do mercado, 300 novas vagas de emprego direto foram criadas no setor da construção civil somente no mês passado, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) na Paraíba. Pessoas como o auxiliar de pedreiro Manuel da Silva Neto, de 43 anos, agora têm emprego garantido.”Trabalho como pedreiro há dez anos e houve época em que ficava parado, sem trabalho, mas de um tempo para cá não sofri mais isso”, comemora.